Quando ele era criança, não era muito querido.
Na sua rua, sua rua não, um fim de mundo perdido de São Paulo, uma destas ruas pobres que os cineastas brasileiros tanto vendem em seus filmes e que alguns estudantes universitários de humanas e pessoas de má fé tanto se utilizam para legitimar suas verborragias demagógicas e populistas. Bem, esqueçamos disto, não vamos destituí-lo do pouco de atenção que lhe cabe neste momento, já basta de que cineastas, antropólogos e sindicalistas contem as histórias dele e a utilizem para a política, para financiar filmes, para reivindicar mais recursos para as caras universidades brasileiras, enfim, deixe-mos estes de lado.
Quanto ao moleque, na verdade, até ai, tudo bem. Nem todos moleques são queridos, algumas pessoas gostam de alguns, de outros não, afinal, moleque sadio, vive brigando, pulando muro, quebrando vidro de vizinho chato e as lâmpadas dos postes, por pura diversão. Tem gente que entende, tem gente que não, estes chamam logo a polícia, juizado de menores, ou então, baixa logo o barraco das mães, que como galinhas, brigam, xingado o filho dos outros e defendendo os seus.
Mas de vez em quando rolavam as festas - que a molecada chamava de brincadeira, toca discos velhos, extensões com lâmpadas no quintal e guaraná - e em algumas delas, as crianças se entendiam, dançavam funk e, depois, no finalzinho, dançavam as lentas, ensaiando os primeiros passos para os braços das mulheres...algumas destas festas eram abertas a todos da vila, iam todos os moleques e meninas, algumas, nem tanto, eram restritas.
Destas, mais elitizadas, eram as festas dos filhos do dono do boteco, um estabelecimento que se reduzia a uma garagem, com prateleiras improvisadas de tijolos e táboas, além de balcões comprados de terceira mão de alguma padaria falida. As especialidades da casa eram sempre as mesmas, de manhã pão e leite, ao meio dia o boteco fechava, abria por volta das cinco, para não perder a clientela do expediente; pedreiros, encanadores, serralheiros e eletricistas que saiam do trabalho e iam discutir, com ares de importância e sabedoria, o futebol e a política, com aquela ingenuidade de quem sempre acha estar com a razão.
O dono do boteco tinha uns quatro filhos; três meninos e uma menina, a diferença de idade entre eles era de um ano para cada um, estavam na mesma faixa etária da molecada que brincava na rua e algumas vezes todos iam para a escola juntos. Mas não saiam para brincar e, os meninos, quando saiam, invariavelmente, apanhavam. Geralmente as encrencas começavam por causa das piadas em relação à irmã, outras por esnobismo birrento. A promissora família vendedora de pinga era a família mais rica da rua e todos sabiam disso.
Muitas vezes, como a família do dono do boteco era grande e gorda, eles faziam festas para comemorar aniversários em sua casa, esta que ostentava na frente ares de fortaleza, de um lado um porta de garagem barulhenta e que sempre enroscava, como que avisando a abertura do boteco, e um grande portão verde acobreado pela ferrugem, portão alto para manter a privacidade dos felizes.
Ser convidado para as festas era muito difícil para os meninos da rua. Assim, os moleques briguentos e encrenqueiros especulavam, sob o nevoento cheiro de churrasco, sobre as relações dos bem sucedidos vizinhos, falavam das ligações do dono do boteco com os maçons e com a polícia, o filho mais velho, inclusive, estava na universidade...às vezes falava de Marx, quando se dava ao luxo de conversar com alguém, e dizia às pessoas da vila o quanto eram desgraçados.
Nos fins de semana a rua virava uma festa, quando chovia então, jogar futebol no barro era um delírio, até os filhos do dono do boteco escapavam de ajudar atrás dos balcões para jogar bola na rua. Numa destas peladas, nosso não muito amado protagonista jogou no mesmo time que Roberto, este que conseguira burlar autoridade paterna e sair na rua. Dois gols cada um, em cada gol o cruzamento do outro, nem parece que haviam saído na porrada dois dias atrás, briga com direito a areia nos olhos, puxão de cabelo e olho roxo, sendo que o nobre rebento ainda possuía um mancha, quase, imperceptível sob o olho esquerdo. Depois do jogo, a irmã do nobre parceiro eventual veio chamá-lo de forma marrenta;
-“Roberto, o pai mandou você ir para casa agora, para ajudar ele colocar as cervejas na geladeira e cortar e temperar a carne para o churrasco, para a festa de hoje à noite que logo o pessoal começa a chegar!”
Já estava escurecendo e Roberto não queria ir, planejavam mais uma gloriosa partida e estavam bastante empolgados, ele ficou bravo com a irmã e a mandou rispidamente ir embora, ela fez caretas e provocou-o dizendo que iria falar para seu pai que ele não queria ir e que ele iria apanhar, ela foi até o meio do caminho e parou, olhou para trás, pôs as mãos na cintura com ar de autoridade e gritou,
- “Vai já para casa moleque, para de andar com estes coisas ae.....”
Roberto correu atrás da irmã, esta que deu um pulo e saiu correndo para casa, sumiu atrás do gigantesco portão verde enferrujado como um ratinho que acaba de ser descoberto e foge. Atrás do portão ouvia-se ela a gritar:
-“Vou contar tudo para o meu pai!.”
Ele voltou um pouco sem graça, tentando demonstrar segurança e com a feição um pouco tensa, com cara de bravo.
Bola vai, bola vem, mais três gols, dois do Roberto. Antes de terminarmos a partida, esta que teria seu término definido quando um dos times fizesse quatro gols o estrondo do portão se faz ouvir, o pai de Roberto sai com uma cinta na mão e sem dizer nada, se aproxima dos moleques, Roberto fica imobilizado, para de correr e fica com os dois pés juntos, baixa a cabeça e fica sem graça, seu pai se aproxima e o manda entrar, ele corre, abre desajeitadamente o portão e desaparece atrás da muralha de metal.
O dono do boteco olha para todos nós e fala com um dos nossos, mais precisamente Ismael, filho de Seu Ismael, guarda noturno de uma empresa que fica numa das entradas da vila, mais precisamente na única entrada da rua onde todos moravam.
-“Diga para seu pai ir lá em casa hoje à noite, comer uma carninha, e se você quiser ir com ele, pode ir.”
Ismael saiu correndo em direção a sua casa e nem se despediu dos outros moleques. A molecada começou a se despedir, os que desciam a rua iam juntos, os que iam para outro lado se agrupavam. No seu caminho, nosso moleque malcriado pasou pela frente da casa de Ismael, mas teve de ir em outro lugar antes de ir para casa, entrou pelo espaço entre duas casas e atravessou o estreito terreno baldio saindo atrás das casas de madeira e tijolo aparente, sem reboco, passou por trás da casa do dono do boteco e, perto do muro alto de blocos de cimento, baixou as calças, agachou-se e fez suas necessidades, digamos, mais pesadas, ficou ali alguns minutos, escutando o barulho dos grilos e olhando a avenida distante, com os faróis rasgando a noite nascente, terminou a cagada e procurou uma folha de mamona, não achando, procurou no lixo alguma folha de papel velha, achou um jornal ressecado por várias interpéries e, de certo modo, reciclou o papel usando-na sua limpeza pessoal. Andou mais alguns metros e saiu atrás do terreno onde ficava sua casa, atravessou a casa dos fundos, a casa do dono do terreno, uma casa de dois cômodos e chegou no barraco onde morava com sua mãe. Ela não estava em casa e a porta estava amarrada com corrente e cadeado. Sentou no chão e encostou-se na porta, esperando pela volta dela e amaldiçoando o fato dela não estar em casa, ele queria tomar um banho e por a outra bermuda e a outra camiseta para ir para a casa do Ismael e tentar ir à festa com ele...
Uma hora esperando e nada, ele decidiu ir do jeito que estava, com a camiseta desbotada e a bermuda do futebol, e descalço, como andava pela rua. Foi até o tanque de Seu Miguel e Dona Ana, os donos do terreno, tirou a camisa e a bermuda, abriu a torneira e entrou no tanque, pegou o pedaço de sabão e passou pelo corpo, queria muito ver Janete, irmã de Roberto, e queria estar, pelo menos de banho tomado. Dona Ana cozinhava, podia vê-la, deformada pelos vidros da janela e podia-se sentir o cheiro do feijão. Ela abriu e olhou pelas frestas dos vidros basculantes e perguntou quem estava ali, no tanque, uma vez tendo recebido a resposta, ela perguntou se ele queria tomar banho no banheiro dela, agradeceu e disse que já estava pronto, falou que tinha um “compromisso”, estava com pressa, saiu do tanque e se enxugou na própria camisa e foi para a casa de Ismael.
Chegou lá com a camisa toda amassada e úmida, gritou no portão, os cães vieram latindo, dois cães vira-latas que latiam apenas quando o portão estava fechado, bastava alguém abrir o portão e os cães corriam felizes pela rua balançando o rabo e se entregando a uma orgia de odores com os outros cães. Quem veio foi o pai de Ismael, mulato e magro, sem camisa e de chinelo, com uma barriga enorme, poucos cabelos e com o bigode que começavam a branquear, abriu o portão e não conseguiu conter a fuga dos cães...
Mandou-o entrar e falou que o Júnior estava tomando banho, entrou enquanto Seu Ismael ficava no portão chamando os cães.
Quinze minutos depois os dois Ismaéis estavam saindo, o pai colocara apenas uma camisa de mangas curtas e a deixara entreaberta devido ao calor, Ismaelzinho estava de tênis, meias brancas, até o meio das canelas e bermuda jeans, camisa de mangas curtas também, porém, devidamente abotoadas, o cabelo liso escorrido penteado de lado. Dona Rosa falou para que não demorassem, Ismael pai falou que ia ser rápido, só ia conversar algumas coisas e comer um pedaço de carne para não fazer desfeita, de camisa toda zuada foi saindo junto e os acompanhou até a frente de sua casa da família festeira. Ismael pai perguntou onde estava a mãe do jovem imundo e ele apenas respondeu que não sabia, disse achar que ela ainda não havia chegado do trabalho.
Ismael Júnior chamou-o para ir na festa, com aquela ingenuidade que torna as crianças de uma dignidade enternecedora, o pai olhou para os dois lados da rua:
-“Vamos filho, senão a gente chega tarde.” Falou mansamente com o filho.
-“Há pai, deixa ele ir junto...”
Este já se oferecia:
- “É, eu podia ir com vocês enquanto minha mãe não chega...eu sou amigo do Roberto também!”
Ismael pai olhou o relógio, olhou para a casa de onde uma nuvem de fumaça saia e alguns sons de música sertaneja...olhou para o menino e disse, acho melhor você esperar sua mãe, vai que ela chega e não sabe onde você está, ela pode ficar brava...
-“Há pai, deixa ele ir com a gente, a gente vai ficar só um pouquinho mesmo....”
-“Tudo bem, mas sem bagunça hein, não vai fazer bagunça na casa dos outros!”
-“Tudo bem, eu prometo que não vou fazer bagunça...”
.O dono do boteco conversa com Seu Ismael, ao lado da churrasqueira, e todos na festa olham para os dois moleques assustados, os dois pais vêm em direção dos dois moleques, Roberto chora, parece machucado, alguns copos, talheres, pratos e vários pedaços de carne crua esparramados pelo chão. O dono do boteco socorre o filho, perguntando o que aconteceu, Seu Ismael diz com calma que - “estas coisas acontecem, moleques são assim mesmo” -...o dono do boteco pega o intruso pelo braço e o leva até o portão jogando-o para fora com violência e gritando;





