8.7.07

Falta de educação

Quando ele era criança, não era muito querido.

Na sua rua, sua rua não, um fim de mundo perdido de São Paulo, uma destas ruas pobres que os cineastas brasileiros tanto vendem em seus filmes e que alguns estudantes universitários de humanas e pessoas de má fé tanto se utilizam para legitimar suas verborragias demagógicas e populistas. Bem, esqueçamos disto, não vamos destituí-lo do pouco de atenção que lhe cabe neste momento, já basta de que cineastas, antropólogos e sindicalistas contem as histórias dele e a utilizem para a política, para financiar filmes, para reivindicar mais recursos para as caras universidades brasileiras, enfim, deixe-mos estes de lado.

Quanto ao moleque, na verdade, até ai, tudo bem. Nem todos moleques são queridos, algumas pessoas gostam de alguns, de outros não, afinal, moleque sadio, vive brigando, pulando muro, quebrando vidro de vizinho chato e as lâmpadas dos postes, por pura diversão. Tem gente que entende, tem gente que não, estes chamam logo a polícia, juizado de menores, ou então, baixa logo o barraco das mães, que como galinhas, brigam, xingado o filho dos outros e defendendo os seus.

Mas de vez em quando rolavam as festas - que a molecada chamava de brincadeira, toca discos velhos, extensões com lâmpadas no quintal e guaraná - e em algumas delas, as crianças se entendiam, dançavam funk e, depois, no finalzinho, dançavam as lentas, ensaiando os primeiros passos para os braços das mulheres...algumas destas festas eram abertas a todos da vila, iam todos os moleques e meninas, algumas, nem tanto, eram restritas.

Destas, mais elitizadas, eram as festas dos filhos do dono do boteco, um estabelecimento que se reduzia a uma garagem, com prateleiras improvisadas de tijolos e táboas, além de balcões comprados de terceira mão de alguma padaria falida. As especialidades da casa eram sempre as mesmas, de manhã pão e leite, ao meio dia o boteco fechava, abria por volta das cinco, para não perder a clientela do expediente; pedreiros, encanadores, serralheiros e eletricistas que saiam do trabalho e iam discutir, com ares de importância e sabedoria, o futebol e a política, com aquela ingenuidade de quem sempre acha estar com a razão.

O dono do boteco tinha uns quatro filhos; três meninos e uma menina, a diferença de idade entre eles era de um ano para cada um, estavam na mesma faixa etária da molecada que brincava na rua e algumas vezes todos iam para a escola juntos. Mas não saiam para brincar e, os meninos, quando saiam, invariavelmente, apanhavam. Geralmente as encrencas começavam por causa das piadas em relação à irmã, outras por esnobismo birrento. A promissora família vendedora de pinga era a família mais rica da rua e todos sabiam disso.

Muitas vezes, como a família do dono do boteco era grande e gorda, eles faziam festas para comemorar aniversários em sua casa, esta que ostentava na frente ares de fortaleza, de um lado um porta de garagem barulhenta e que sempre enroscava, como que avisando a abertura do boteco, e um grande portão verde acobreado pela ferrugem, portão alto para manter a privacidade dos felizes.

Ser convidado para as festas era muito difícil para os meninos da rua. Assim, os moleques briguentos e encrenqueiros especulavam, sob o nevoento cheiro de churrasco, sobre as relações dos bem sucedidos vizinhos, falavam das ligações do dono do boteco com os maçons e com a polícia, o filho mais velho, inclusive, estava na universidade...às vezes falava de Marx, quando se dava ao luxo de conversar com alguém, e dizia às pessoas da vila o quanto eram desgraçados.

Nos fins de semana a rua virava uma festa, quando chovia então, jogar futebol no barro era um delírio, até os filhos do dono do boteco escapavam de ajudar atrás dos balcões para jogar bola na rua. Numa destas peladas, nosso não muito amado protagonista jogou no mesmo time que Roberto, este que conseguira burlar autoridade paterna e sair na rua. Dois gols cada um, em cada gol o cruzamento do outro, nem parece que haviam saído na porrada dois dias atrás, briga com direito a areia nos olhos, puxão de cabelo e olho roxo, sendo que o nobre rebento ainda possuía um mancha, quase, imperceptível sob o olho esquerdo. Depois do jogo, a irmã do nobre parceiro eventual veio chamá-lo de forma marrenta;

-“Roberto, o pai mandou você ir para casa agora, para ajudar ele colocar as cervejas na geladeira e cortar e temperar a carne para o churrasco, para a festa de hoje à noite que logo o pessoal começa a chegar!”

Já estava escurecendo e Roberto não queria ir, planejavam mais uma gloriosa partida e estavam bastante empolgados, ele ficou bravo com a irmã e a mandou rispidamente ir embora, ela fez caretas e provocou-o dizendo que iria falar para seu pai que ele não queria ir e que ele iria apanhar, ela foi até o meio do caminho e parou, olhou para trás, pôs as mãos na cintura com ar de autoridade e gritou,

- “Vai já para casa moleque, para de andar com estes coisas ae.....”

Roberto correu atrás da irmã, esta que deu um pulo e saiu correndo para casa, sumiu atrás do gigantesco portão verde enferrujado como um ratinho que acaba de ser descoberto e foge. Atrás do portão ouvia-se ela a gritar:

-“Vou contar tudo para o meu pai!.”

Ele voltou um pouco sem graça, tentando demonstrar segurança e com a feição um pouco tensa, com cara de bravo.

Bola vai, bola vem, mais três gols, dois do Roberto. Antes de terminarmos a partida, esta que teria seu término definido quando um dos times fizesse quatro gols o estrondo do portão se faz ouvir, o pai de Roberto sai com uma cinta na mão e sem dizer nada, se aproxima dos moleques, Roberto fica imobilizado, para de correr e fica com os dois pés juntos, baixa a cabeça e fica sem graça, seu pai se aproxima e o manda entrar, ele corre, abre desajeitadamente o portão e desaparece atrás da muralha de metal.

O dono do boteco olha para todos nós e fala com um dos nossos, mais precisamente Ismael, filho de Seu Ismael, guarda noturno de uma empresa que fica numa das entradas da vila, mais precisamente na única entrada da rua onde todos moravam.

-“Diga para seu pai ir lá em casa hoje à noite, comer uma carninha, e se você quiser ir com ele, pode ir.”

Ismael saiu correndo em direção a sua casa e nem se despediu dos outros moleques. A molecada começou a se despedir, os que desciam a rua iam juntos, os que iam para outro lado se agrupavam. No seu caminho, nosso moleque malcriado pasou pela frente da casa de Ismael, mas teve de ir em outro lugar antes de ir para casa, entrou pelo espaço entre duas casas e atravessou o estreito terreno baldio saindo atrás das casas de madeira e tijolo aparente, sem reboco, passou por trás da casa do dono do boteco e, perto do muro alto de blocos de cimento, baixou as calças, agachou-se e fez suas necessidades, digamos, mais pesadas, ficou ali alguns minutos, escutando o barulho dos grilos e olhando a avenida distante, com os faróis rasgando a noite nascente, terminou a cagada e procurou uma folha de mamona, não achando, procurou no lixo alguma folha de papel velha, achou um jornal ressecado por várias interpéries e, de certo modo, reciclou o papel usando-na sua limpeza pessoal. Andou mais alguns metros e saiu atrás do terreno onde ficava sua casa, atravessou a casa dos fundos, a casa do dono do terreno, uma casa de dois cômodos e chegou no barraco onde morava com sua mãe. Ela não estava em casa e a porta estava amarrada com corrente e cadeado. Sentou no chão e encostou-se na porta, esperando pela volta dela e amaldiçoando o fato dela não estar em casa, ele queria tomar um banho e por a outra bermuda e a outra camiseta para ir para a casa do Ismael e tentar ir à festa com ele...

Uma hora esperando e nada, ele decidiu ir do jeito que estava, com a camiseta desbotada e a bermuda do futebol, e descalço, como andava pela rua. Foi até o tanque de Seu Miguel e Dona Ana, os donos do terreno, tirou a camisa e a bermuda, abriu a torneira e entrou no tanque, pegou o pedaço de sabão e passou pelo corpo, queria muito ver Janete, irmã de Roberto, e queria estar, pelo menos de banho tomado. Dona Ana cozinhava, podia vê-la, deformada pelos vidros da janela e podia-se sentir o cheiro do feijão. Ela abriu e olhou pelas frestas dos vidros basculantes e perguntou quem estava ali, no tanque, uma vez tendo recebido a resposta, ela perguntou se ele queria tomar banho no banheiro dela, agradeceu e disse que já estava pronto, falou que tinha um “compromisso”, estava com pressa, saiu do tanque e se enxugou na própria camisa e foi para a casa de Ismael.

Chegou lá com a camisa toda amassada e úmida, gritou no portão, os cães vieram latindo, dois cães vira-latas que latiam apenas quando o portão estava fechado, bastava alguém abrir o portão e os cães corriam felizes pela rua balançando o rabo e se entregando a uma orgia de odores com os outros cães. Quem veio foi o pai de Ismael, mulato e magro, sem camisa e de chinelo, com uma barriga enorme, poucos cabelos e com o bigode que começavam a branquear, abriu o portão e não conseguiu conter a fuga dos cães...

Mandou-o entrar e falou que o Júnior estava tomando banho, entrou enquanto Seu Ismael ficava no portão chamando os cães.

Quinze minutos depois os dois Ismaéis estavam saindo, o pai colocara apenas uma camisa de mangas curtas e a deixara entreaberta devido ao calor, Ismaelzinho estava de tênis, meias brancas, até o meio das canelas e bermuda jeans, camisa de mangas curtas também, porém, devidamente abotoadas, o cabelo liso escorrido penteado de lado. Dona Rosa falou para que não demorassem, Ismael pai falou que ia ser rápido, só ia conversar algumas coisas e comer um pedaço de carne para não fazer desfeita, de camisa toda zuada foi saindo junto e os acompanhou até a frente de sua casa da família festeira. Ismael pai perguntou onde estava a mãe do jovem imundo e ele apenas respondeu que não sabia, disse achar que ela ainda não havia chegado do trabalho.

Ismael Júnior chamou-o para ir na festa, com aquela ingenuidade que torna as crianças de uma dignidade enternecedora, o pai olhou para os dois lados da rua:

-“Vamos filho, senão a gente chega tarde.” Falou mansamente com o filho.

-“Há pai, deixa ele ir junto...”

Este já se oferecia:

- “É, eu podia ir com vocês enquanto minha mãe não chega...eu sou amigo do Roberto também!”

Ismael pai olhou o relógio, olhou para a casa de onde uma nuvem de fumaça saia e alguns sons de música sertaneja...olhou para o menino e disse, acho melhor você esperar sua mãe, vai que ela chega e não sabe onde você está, ela pode ficar brava...

-“Há pai, deixa ele ir com a gente, a gente vai ficar só um pouquinho mesmo....”

-“Tudo bem, mas sem bagunça hein, não vai fazer bagunça na casa dos outros!”

-“Tudo bem, eu prometo que não vou fazer bagunça...”

-“Se você bater no Roberto de novo eu mesmo te dou uns tapas hein!? Estou falando sério!”

-“Tudo bem Seu Ismael, não vou brigar com ele não, hoje a gente até jogou bola junto, e marcamos um monte de gols, ele é meu amigo!”. Falou com um sorriso de satisfação, a mesma satisfação e inocência de quem acredita dizer a verdade e não sabe estar mentindo.

Chegando em frente ao portão, uns dois carros do lado de fora, Seu Ismael apertou a campainha, uma campainha que ficava um pouco alto, para que os moleques não alcançassem e fizessem suas estripulias. Muito rápido o portão se abriu, era o dono do boteco, o portão não estava trancado e por isso não fez tanto barulho, os cães estavam acorrentados e deviam estar abarrotados de carne. O nosso anfitrião estendeu a mão e cumprimentou seu Ismael, passou a mão na cabeça de ismaelzinho e olhou para aquele menino pequeno e imundo, deu-lhe tanta pena que não teve coragem de questionar a presença daquele ser, dirigiu um olhar para Ismael pai e não disse nada, apenas balançaram os ombros. Os dois Ismaéis entraram e ele foi junto.

Havia umas vinte pessoas no quintal forrado de pedra brita, uma churrasqueira e a Variant azul do dono do boteco, o cheiro de carne perfumava o ambiente e algumas conversas entrecortavam-se e fundiam-se ao som de música sertaneja de FM. As crianças brincavam de rela-rela, meninos e meninas, o dono do boteco deu ao intruso um espeto de carne e um copo de Coca-Cola que foi comer junto com ismaelzinho, comeram como loucos esfomeados, queria mais, porém, ficou com vergonha de pedir...foi brincar com a molecada.

Começaram a correr pelo quintal, que não era grande. Corre de lá e corre de cá, um estrondo é ouvido e Roberto está caído, junto de uma mesa metálica, destas de distribuidoras de cerveja, o não-convidado encontra-se perto dele, em pé....parado...

.O dono do boteco conversa com Seu Ismael, ao lado da churrasqueira, e todos na festa olham para os dois moleques assustados, os dois pais vêm em direção dos dois moleques, Roberto chora, parece machucado, alguns copos, talheres, pratos e vários pedaços de carne crua esparramados pelo chão. O dono do boteco socorre o filho, perguntando o que aconteceu, Seu Ismael diz com calma que - “estas coisas acontecem, moleques são assim mesmo” -...o dono do boteco pega o intruso pelo braço e o leva até o portão jogando-o para fora com violência e gritando;

-“Moleque de merda, meu filho não é igual você não! Meu filho tem educação!” Gritava outras coisas enquanto arrastava o pesado portão.

Caído no chão com os joelhos e cotovelos esfolados ele nem soube de quem era a festa de aniversário.

Suingue

Batidas constantes, batidas de um coração descompassado, mas, porém, sobretudo, conquanto, todavia... um coração com suingue.

As veias do lado da testa cadenciavam seguindo os dois ritmos; o do coração e o da música orgânica do funk de Lyn Collins (clique aqui para ouvir). O conhaque contribuía para o calor e para a fome ambígua, a da acidez do meu estômago e do desejo por aquela garota. Aquela garota que todos achavam linda, e que eu queria porque todos achavam linda, aquela garota que todos achavam linda e que eu achava meio estranha, desengonçada. Desengonçada porque lhe faltava suingue e eu a achava linda porque todos a achavam linda! Eu não podia deixar de ter uma certa pena, quem era aquela maldita infeliz que não sabia dançar e ficava como um frango com braços encolhidos, como um Tiranossauro Rex, para lá e para cá, com aquele sorriso bobo e de belos dentes. Eu já a conhecia, uma garota bem legal, legal até demais, sabe? Aquela pessoa que é tão legal que incomoda!? Meu amigo, ninguém pode ser tão legal assim, ainda mais sem suingue.

Move your hand!!! Ela cantava com suingue...ela quem!? A Lyn Collins, claro! Afinal, já disse que a garota que dançava não tinha suingue. Você já transou com alguém que não tem suingue? Se já, talvez você me entenda, é no mínimo estranho, mas pode ser bom, se você não tiver suingue também...deve ser engraçado ver duas pessoas sem suingue dançando, ou melhor transando - as atrizes pornô, geralmente têm suingue. É claro que eu já transei com garotas sem suingue....é cabeçada, cotovelada, joelhada, no escuro, meu amigo, sabe aquela trepada em que explodem gargalhadas? Ou lágrimas? Ééééééééé...é desse naipe.

Bem, sobre a garota que era linda, mas dançava como um Tiranossauro Rex. Eu me apaixonei por ela, não estou mais apaixonado por ela. Mas ela me mandou para o hospital cara! Ela me desprezou, eu e meu suingue...

Inclusive, foi ela que me convidou para esta balada. Lugar legal, vários desenhos cabulosos, várias caras de pessoas sozinhas, é impressionante, a maioria dos desenhos são de faces, se é que eu posso chamar aquelas caras agonizantes de faces, faces sem suingue, talvez.

Mas como ela me mandou para o hospital, sei lá. Em algum momento ela me tirou, me viu e saiu correndo como se foge da um cara chato, feio e pobre, ou pior ainda, sem suingue.e eu, sentimental como um imbecil medíocre, fiquei deprimido. Poxa, um cara legal como eu, que me imaginava com suingue! Fiquei na maior depressão, isso sem contar um cara que entrou em casa me acusando de roubar um cd de samba, de samba! Poxa, se fosse de Jazz, de Funk, podia até ser um cd do Shostakovich, mas, de samba?! Eu jamais roubaria nada, ainda mais um cd de samba! Não que eu não goste de samba, até gosto, mas realmente....eu não roubaria um cd de samba! E olha que já sumiram cd’s de samba de minha propriedade.

Bem, então juntando estas coisas escrotas todas, eu fiquei meio mal. Pensei em até ir para um mosteiro, virar católico radical. A propósito, tenho várias convergências com o catolicismo, acho que camisinha é uma merda, ninguém deveria usar essa coisa. Sou contra o aborto, amo crianças, sejam pobres, sejam feias, pretas, brancas, homossexuais, ricas, ou seja lá o que for, acredito que todas as crianças tem suingue. Além do mais, eu curto liturgias, gosto de rituais, adoro pessoas que entram em uma igreja e comem pão seco e tomam vinho barato como se fossem partes do corpo do filho de um Deus Onipresente, Onipotente e Onisciente e que com certeza me perdoaria por esta merda que estou escrevendo. Isso é ter suingue. Há outras convergências, mas vou me ater à garota.

Depois que ela fugiu de mim e eu fiquei deprimido, apareceram algumas feridas no meu lombo. No princípio estas feridinhas coçavam muito. Mostrei a um cara que eu conheço e ele, enquanto se coçava assepticamente me disse que era sarna.

Eu fiquei muito mal. Eu com sarna? Não era possível! De onde apareceu essa merda dessa sarna? Quase esganei o infeliz, enquanto ele se coçava como um gambá. Sai meio desorientado. Já sei...poderia ser um maldito de um cara que eu conheço, um maldito de um maldito poeta, chato e de uma auto - piedade chata, definitivamente sem suingue. Ele fora preso há alguns dias, vandalismo, poderia ter pego sarna na cadeia, e eu, cristão como sou ou tento ser, ouvi os lamentos do infeliz, recebi-o em casa, tomamos café e comemos pão com manteiga, mas isso é outra história...

Fui diretamente ao supermercado, peguei dinheiro emprestado de um amigo e fui ao supermercado. Comprei um litro de água sanitária. Já havia usado água sanitária antes para curar umas feridas que me apareceram no pé há alguns anos, quando morava em uma moradia estudantil em outra cidade. O banheiro dessa moradia ficou alguns anos sem ser lavado e eu, muito esperto, fui tomar banho de chinelo nessa pocilga. Depois das feridas, outros moradores do lugar me disseram que eu deveria comprar uma bota de plástico, igual as dos açougueiros, para poder tomar banho, ou colocar dois tijolos no piso do banheiro e subir em cima dos mesmos, para assim, fazer minha “higiene” pessoal. Enfim, comprei a água sanitária e despejei aos borbotões sobre as pequenas feridinhas que começavam a brotar no meu lombo.

No outro dia, preocupado, fui ao médico, ele me fez a seguinte pergunta:

- Você esta estressado, teve depressão ou alguma experiência traumática por estes dias?

Respondi sem titubear:

- As três coisas!

- Herpes Zoster! Ele respondeu serenamente.

- Mas eu não comi ninguém!

Eles simplesmente disse:

- Não se trata disso! Você está emocionalmente abalado e com certeza você já teve catapora, é o vírus da catapora que aproveitou seu estresse e te atacou. Você vai sobreviver, é só tomar umas vitaminas e passar uma pomadinha.

Bem, renascido das cinzas, como uma fênix, fui cuidar da minha herpes.

Mas esquecendo da Herpes Zoster e voltando para a baladinha...

Uma mão tomou o copo de conhaque das minhas. Uma amiga, Kelly, feminista, tomava às goladas suaves, o resto do conhaque, seus olhos fincavam a garota dançando como se esta fosse um boneco vudu.

- Puxa vida, que gostosa essa mina hein!?

Indefesamente eu concordei, porém disse :

- Mas ela não tem suingue!

- Háááááá, fala sério, você adoraria comer ela, mas como não pode, fica ae, menosprezando a garota, você não tá com nada cara, idiota! Até eu que sou feminista achei a mina a maior gostosa! Você não passa de um conservador, reaça, babaca que fica olhando a bunda das menininhas!

Rola Soul Brother Testify, um rare groove do Original Soul Sender (clique aqui para ouvir), noto que minha musa havia desaparecido, a pista fica vazia embora o som seja excelente, de repente, um carinha estranho começa a dançar, baixinho, de boné, todo ornamentado de pobre e, definitivamente, sem suingue. Eu saio para respirar um pouco de ar puro.

- Que merda! – Eu pensei – Por quê elas fazem isso comigo???


Depois de alguns dias eu encontrei a garota, não minha amiga feminista, mas a garota sem suingue pela qual eu estava apaixonado. Eu começara a assistir algumas aulas de alguma disciplina qualquer a qual nem me lembro, como tinha gostado eu em algum momento havia convidado a garota para assistir umas aulas lá também, ela parecia gostar de cinema, por isso a chamei.

Nos encontramos no intervalo da aula, ela veio com um sorriso maldoso. Havia pintado os cabelos de vermelho.

-Oi, como você está?

-Tudo bem, Muiiiiiito bem! Estou ótimo! Uma maravilha! Melhor impossível!

- Eu também, estou óóóóóótima!

- Que bom!

- É!

- Legal!

- Arrã!

Silêncio. Olhei o buraco do nariz dela e achei ele horrível.

Eu falei.

- Nossa, você pintou o cabelo! Ficou legal!

- É, eu estou apaixonada, e ele finge que não percebe, faz duas semanas que eu desisti, não entendo estes homens, eu apaixonada e ele finge que não percebe!

Devo confessar que uma luz vermelha piscou, um alarme soou, “cara, só pode ser você” Eu pensei, me senti o homem mais feliz do mundo! Faziam exatamente duas semanas que ela me esnobara, duas semanas que ela havia fugido de mim! E agora ela se declarava! Mas me contive, a prudência é algo muito importante.

Durante a aula, um filme do Einsenstein, “Encouraçado Potenkin” nossos braços se tocaram várias vezes, eu pensei que era algum sinal. Depois da aula não pude me conter, me declarei, falando em códigos que só eu entendia eu me embrenhava num labirinto piegas, digno de um paranóico, no caminho eu dizia:

- Vamos dar uma volta?

Ela dizia:

- Não posso, prefiro irmos direto.

Eu entendia que ela queria ir direto ao assunto, eu respondia.

- Você é bem objetiva, não gosta de rodeios...

Ela me olhava com um ar curioso e assustado:

- Como assim?

- Você não consegue perceber certas coisas né?

- Não, o mundo é um lugar muito nebuloso!

- Eu estou apaixonado por você!

Confesso que o sorriso que ela deu depois da minha declaração infantil foi uma das coisas mais belas que já vi, ela ficou avermelhada e simplesmente disse:

- Mas eu estou apaixonada por outro!

- Há...sério?!

- Sim...por outro, por quê a gente sempre se apaixona pelas pessoas erradas? Por quê quem a gente quer não quer a gente???

- Há....para, para, por favor, para!!! Você tá ajudando bastante!!!
-
Realmente fiquei desconcertado, que merda, eu e minhas alucinações, fui pego mais uma vez.

- O que foi Dani???

- Nada, não foi nada, falou!

E debandei, fui saindo fora.

- Espera....deixa de ser criança, vamos comigo, eu te levo...

Entramos no carro e começou o sermão...

- Dani, você precisa sair mais, conhecer pessoas...

- Para meu...poxa...que mania de achar que sabe o que é melhor para os outros....ai, eu sai....me expus...e olha só o que acontece!!!

- Há...mas...

- Mas o quê?

- Eu não quero me envolver...eu gosto de você como amigo....

Eu não acreditava que estava ouvindo isso, não era possível, ela não parecia estava sendo malvada, ela falava com uma certa inocência, mas parecia ter um pingo de maldade ali, eu não podia estar apaixonado por esta garota! Parecia uma conversa da quinta série.

- Eu acho que temos coisas para trocar...não estou te pedindo em casamento.

- Eu sei Dani, mas não dá. – Confesso que existia uma certa ternura nas sua palavras.

- Pára o carro, vou descer, por favor!

Carro parado e ela me diz:

- Você vai ficar bem né?

- É claro que vou!

Sai batendo a porta do carro. Minha bolsa enroscou na porta, fiquei desorientado. Desenrosquei a bolsa e fui, tropecei no paralelepípedo. Maior papelão. Andei um pouco e parei, olhei, só pude ver seu carro desaparecendo.




6.7.07

Amorfo de dor

Amorfo de dor
Mente nas cidades
Perto do verde
Compor cada nação

Amor fodedor
Mente nascida desperto
do ver decompor
cada nação

Amor fodedor
mente nas cidades
perto do ver
decompor cada nação

Amor fode
Dor mente
nascida desperto
do verde com porcada
nação

8.5.06

Nadismo.



Sinto...falta...muito?!
Nada?!

Esse meu “new...ilhismo”,
esse meu “sim...ismo”,
“mas o que...ismo”,
“como...ismo”.

Só falo de mim,
só penso em mim,
esqueço também.
Cadê você???

Falha-me a memória,
mas que história?
Poema, dilema, Ana...tema!

Sóbrio sobro,
não sou agente,
não sou sujeito,
sou objeto.
Quem é?
Quem não é?
Eu sei, eu sei...
Sei o quê?
O poeta é um tolo que rabisca...
Isca...isca...isca...
Há, é o eco!

E as luzes se ascendem...
mostrando-me a dimensão do nada!

Verbos...



Coisas específicas
transformam meu transtorno
em coisas específicas,
transitórias entre
um eu lento
onde o tempo
apenas
se move.

Sento e sinto, minto...
tudo quanto quero ser
é estar no meu devir.

Ser uma simulação...
do ideal...
do mundo...
das idéias...
das coisas...
dos meus eus...
que sonham
ser eu sendo são?
Tudo é se está sendo!

Verbos...tudo não pode ser tão pouco!

Lixo.



Às vezes, certas palavras vêm à cabeça.

Prole, lixo, prolixo.

Deve-se saber usar as palavras.
Deve-se saber usar o lixo.

Recicle, proteja a natureza...
como se ela precisasse de sua pretensão...
opa, errei...
é proteção.

Recicle o homem, enfie-o em um forno,
jogue-o na água, amasse-o com martelo,
separe-o,
queime-o,
triture-o.

Acabe com o homem,
torne-o um mito!

O homem morreu,
Deus morreu...
esqueça a cronologia!!!

5.5.06

Desconexão





O copo de vinho caído no chão
é culpa sua,
mesmo que tenha escorrido,
como água.... como água?!
das minhas mãos.

Associações desconexas,
sociedades privadas ...
de conexão.

Conexão...
conecte-se...
acesse...
tenha um acesso...
a si...
de si...
para si...
si, dó, ré , mi, fá...

faça-me o favor....

pare!!!

Aos heróis

Indivíduo dividido
separado do todo,
arrancado do abrigo
dormente no engodo.

Indivíduo disfarçado
no que odeia e ama,
no caminho do bem
encontra tua cama.

Indivíduo dilacerado
pela dor que não ensina
fruto do pecado
de sua mãe vagina.

Indivíduo duvidoso
guerreiro asceta
de ser bom é orgulhoso
e ainda se acha poeta.
.
.
.
.

O Absurdo.



O absurdo deveria calar-me,
mas não o faz.
Apenas encadeia uma enxurrada de palavras
que sozinhas pouco dizem,
dizem apenas o que eu não sei dizer,
que o absurdo deveria calar-me, mas não faz...

29.1.06





(" ... "! )


Reticências entre aspas
dentro de parênteses que terminam
em exclamação!


Três pontos indicam que
ainda não terminei a oração


A um Deus abstrato
cujo retrato é um fato
que não aconteceu...


...em um futuro sub objetivo
onde não se conjuga o viver
e onde apenas há a coordenação....


...de um pretérito imperfeito
onde sem quê's devo
fazer uma dissertação
sobre uma morte abstrata
que quem retrata relata
um fato que não se deu.